quinta-feira, 23 de maio de 2013

QUASE DE VERDADE




Uma grande brincadeira com o receptor é o que desvenda a leitura de Quase de Verdade, último livro infanto-juvenil de Clarice Lispector, publicado postumamente em 1978. A fábula é um jogo de múltiplos pares, um convite do narrador que arquiteta a aventura, propondo ao leitor uma participação colaborativa.  A ação narrativa é interrompida inúmeras vezes através da intimação do leitor pelo narrador para que preencha os espaços que vão se construindo, seja pela interlocução, seja pelo bordão “patati-patatá” repetido várias vezes. “Quem é a pessoa mágica na cozinha de sua casa?” “Engole-se ou não se engole o caroço da jabuticabeira?” “Nesse quintal que cheirei o que havia?” são alguns exemplos de perguntas que o narrador faz ao leitor na tentativa de tecer a trama e convidá-lo para o jogo da fabulação. 

A voz do texto, que tem cheiro e fareja, é delegada ao narrador personagem, Ulisses, um cachorro contador de histórias que tem como dona a própria Clarice. Ele late uma “história bem latida” e a escritora traduz para a linguagem dos humanos o enredo traçado por esse grande “navegador” de quintais. Nessa cumplicidade entre a mulher o cão, mais uma vez o limite entre o humano/animal é desterritorizado. Essas duas categorias que a princípio se antagonizam na significação de nossa cultura pela dicotomia do sensível/inteligível são descontruídas pelo texto que centra o relato na voz desse cão que conta uma história “bem latida”.  Diz ele: "Pois não é que vou latir uma história que até parece de mentira e até parece de verdade? Só é verdade no mundo de quem gosta de inventar, como você e eu. O que vou contar também parece coisa de gente, embora se passe no reino em que bichos falam. Falam à moda deles, é claro.

Como em outros escritos de Clarice Lispector, temos animais que usam instinto, porém igualmente sentem, pensam e experimentam. No campo da literatura infanto-juvenil isso é corriqueiro, mas na literatura dita adulta, Clarice o faz várias vezes – vide o conto o Búfalo ou mesmo Felicidade Clandestina. Certa vez ela escreveu em uma crônica sobre o universo que cerca a liberdade de um cão. Disse que ele “é um mistério que não se indaga”. (A Descoberta do Mundo, p. 73). Ulisses então se apresenta ao leitor: “Sabe quem eu sou? Sou um cachorro chamado Ulisses e minha dona é Clarice. Eu fico latindo para Clarice e ela – que entende o significado dos meus latidos – escreve o que lhe conto.“ Para Evando Nascimento, no livro Clarice Lispector: uma literatura pensante (2012), na obra de Clarice,  essa cumplicidade entre o humano e o animal que se funde pode ser percebida em toda a sua escrita adulta ou infantil. “Existe em Clarice uma nostalgia por não ter nascido bicho de todo, isto é, de ser condenada a ser um eterno centauro, metade humana, metade gente”. (p. 27) 

O jogo dialógico que se estabelece entre o narrador e o leitor de Quase de verdade pede que a leitura do texto se interrompa em muitos segmentos, sugerindo um trabalho contributivo na interlocução. Nesse sentido retoma-se a ideia de Roland Barthes, expressa em S/Z (2001) acerca dos textos “escrevíveis”. Para o autor esse tipo de escritura requer uma dedicação maior do leitor, justamente por quebrar o paradigma da sequência comum narrativa. Barthes qualifica esses textos como de “vanguarda”, uma vez que negam seus antecessores no que se refere a uma sintaxe interna das ações. O que se percebe na sequência narrativa da história narrada por Ulisses é justamente uma interrupção da ação para descrever fatos ou provocar o leitor, sendo que a criança muitas vezes prefere a aceleração da ação na evolução narrativa. O próprio Ulisses provoca esse leitor apressado em certas passagens: “E a história? E a essa altura você deve estar se perguntando, cadê a história?” Outro conceito esboçado por Barthes é correlato para a apreciação de Quase de Verdade, aquele em que  caracteriza os textos de fruição (2002, p. 21):

Texto de fruição, aquele que põe em estado de perda, aquele que desconforta (talvez até um certo enfado), faz vacilar as bases históricas, culturais, psicológicas do leitor, a consistência de seus gostos, de seus valores e de suas lembranças, faz entrar em crise sua relação com a linguagem.”  (2002, p.21).





Resgatando a abordagem crítica sincrônica expressa por Ferrara (2001) e entendendo-a como a que “permite resgatar, em tempos diferentes, espaços criativos similares que levam à superação da história como sucessão de fatos organizados em sequência por força de um espaço condicionado” (p.168), é possível perceber vários tempos narrados por Ulisses na estrutura de Quase de Verdade.  

O primeiro é o próprio com sua dona, Clarice, que o traduz para a linguagem dos humanos. Os seguintes são aqueles por ele narrados que se interconectam: o da  uma quituteira de mão cheia Oníria, casada com Onofre, que possuem um galinheiro no fundo da casa por onde Ulisses rasteja e fareja mais histórias. Lá ele conhece Ovídio, um galo casado com Odisseia, uma galinha. Na mesma casa existe o tempo da história da Figueira que não dava figos e faz um pacto com a bruxa má Oxélia, que escraviza todas as galinhas do galinheiro a colocarem ovos initerruptamente, uma vez que nunca mais se faz noite por força da magia da bruxa. Assim a figueira estéril consegue brilhar a noite, com um “brilhareco de sem-vergonhice”. Essas histórias que acontecem simultaneamente no espaço da casa conferem vários focos de narração. Mesmo interdependentes, eles são narradas isoladamente, causando interrupções no fluxo narrativo, e adiando o universo de significações da obra, desterritorizando o espaço da escrita. 

Como entende Dinis (2004, p. 4) esse exercício de escrever tende a “quebrar qualquer tentativa de homogeneização, de estruturação, fugindo do exercício padrão da escrita”. É o que vemos na obra, em seu desenvolvimento enquanto tentativa de estruturação, principalmente nas desculpas de Ulisses pela interrupção do fluxo que tenta se estabelecer, mas que é interrompido, causando desconforto no leitor acostumado com esquemas previsíveis de ação sequenciais. Ulisses então explica:

Os homens homenzavam, as mulheres mulherizavam, os meninos e as meninas meninizavam, os ventos ventavam, a chuva chuvava, as galinhas galinhavam, os galos galavam, a figueira figueirava, os ovos ovavam. E assim por diante. A essa altura, você deve estar reclamando e perguntando: cadê a história? Paciência, a história vai historijar.



Por fim, há uma tentativa em Quase de Verdade de dialogar com seus antecessores em literatura infanto-juvenil. Isso é percebido na evocação da palavra mágica lobatiana do Pir-lim-pim-pim, na escolha do quintal da casa como elemento onírico, imagem da infância de muitas crianças. Também no jogo fônico com a letra “o” de ovo, “origem” presente no código onomástico de tributação de todos os personagens. O dialogismo textual retoma algo de A reforma da natureza, de Monteiro Lobato, cujo enredo caracteriza uma série de transformações mágicas que a personagem Emília realiza no sítio do pica-pau amarelo na ausência de Dona Benta.  Apesar de todas essas tentativas de estabelecer um diálogo com a tradição, são as inovações que conferem a Quase de Verdade um texto diferencial na literatura infanto-juvenil brasileira.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BARTHES, Roland. O prazer do texto. 3ª ed. São Paulo: Perspectiva, 2003.
_________ S/Z. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
DINIS, Nilson. A arte da fuga em Clarice Lispector. Londrina: UEL, 2004.
FERRARA, Lucrécia D´Alessio. O código em férias. In: Olhar periférico. São Paulo: Edusp, 2001.
LISPECTOR, Clarice. Quase de Verdade. Rio de Janeiro: Rocco editores, 1978.
NASCIMENTO, Evando. Clarice Lispector: uma literatura pensante. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.



Nenhum comentário: