quarta-feira, 15 de maio de 2013

Ceci tem Pipi? Gênero na literatura infantil



Thierry Lenain é um escritor francês de literatura infantil que tem oferecido ao leitor obras inteligentes e lúdicas, desconstruindo o gênero através de uma leitura leve, mas não menos séria. Ele fala de temas vistos pelos adultos como "constrangedores", dando a eles um tratamento atualíssimo, fazendo todos, crianças e adultos, pensarem sobre a construção do gênero masculino/feminino em nossa cultura.

Quem trabalha com educação infantil sabe que os pequenos veem o gênero de uma forma muito espontânea, sem malícia ou maldade do que os grandes. Quando acontece o olhar preconceituoso sobre as questões da sexualidade em grande parte isso é gerado pela imitação de um discurso "adulto", que vem do pai ou da mãe, que segmentam o certo e o errado. Como diria Michel Foucault, são dados da nossa episteme cultural que visa vigiar ou punir quem não se enquadra nos estereótipos reprodutivos esperados por uma sociedade totalizadora.

Lenain tem vários livros traduzidos para o português, editados aqui no Brasil pela Cia das Letrinhas. Destaco Ceci tem pipi? e Ceci e o vestido de Max. O autor é pai de duas meninas e a ideia da personagem surgiu quando ambas começaram a frequentar a escola e se viram proibidas de brincar com os meninos ou manifestar qualquer desejo referente ao "mundo masculino". 

Então vieram as histórias de Ceci, metonimicamente representante daqueles que não se enquadram nos gêneros determinados pela cultura com suas características bem definidas. Ela é uma menina que não tem pipi, mas gosta de jogar bola, é atrevida, fala demais, prefere estar com os meninos. Tudo isso causa constrangimento porque menina tem que ser delicada, arrumadinha e falar na hora certa. os pais da personagens entram em conflito, mas logo aprender a respeitar o desejo da filha, amando-a incondicionalmente. 

Em O vestido... Ceci tem um amigo, Max. Certo dia, ele resolve experimentar um vestido seu. Ceci odeia vestidos, mas Max passa a gostar deles. E é nesse jogo do riso com a naturalidade que o autor faz uma alusão aos nossos preconceitos "adultos" já condicionados. Lembrando que Ruth Rocha, na mesma intenção de Lenain, já experimentou a desconstrução do gênero na literatura infantil com os já clássicos "Faca sem ponta, galinha sem pé", "Viva a diferença".

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