domingo, 26 de junho de 2011

CANTA LÁ QUE EU CANTO CÁ



A epígrafe acima pertence a um dos mestres do cordel brasileiro, Patativa do Assaré. Repentista cearense, o poeta nascido roceiro em Assaré, Ceará, era um artista nato da palavra cantada, com repentes líricos de versos metricamente elaborados. Homenageando o artista brasileiro falecido em 2002, o grupo de teatro Cia do Tijolo realiza pelo Brasil afora, com patrocínio do Sesc, o espetáculo Concerto de Ispinho e Fulô, tentando recuperar um pouco desta personalidade da poética oral brasileira.

O evento mistura vários ritmos e sons do Brasil, destaca a produção poética do cearense, e retoma uma história esquecida dos livros didáticos nacionais: o massacre da Chapada do Araripe, em Caldeirão, Ceará. No ano de 1933, incomodado com as rebeliões a partir da instauração do Estado Novo, Getúlio Vargas ordena que seu ministro da defesa, o então general Gaspar Dutra, realize o primeiro ataque áereo do Brasil no Sítio do Caldeirão, dizimando sete mil pessoas, entre crianças, trabalhadores do campo, mulheres e o beato José Lourenço, líder da comunidade. Eles formaram um grupo social autosustentável que estimulou a desconfiança do governo e ameaçou as autoridades nacionais, dada a sua independência econômica e o seu fervor político. Na peça, a história é relatada por meio de poesias, cantos e interações diversas com o público. Um espetáculo simples que se torna grandioso devido à mescla de intervenções que perpassam o canto, a trova, o malabarismo, o jogo de cena e a iluminação.


A expressão "Canta lá que eu canto cá" era uma forma do poeta Patativa enfrentar os estrangeiros que ao Ceará iam coletar seus repentes para transcrevê-los na forma escrita. Adepto da oralidade, Patativa preferia publicar suas criações nos folhetos de cordel vendidos em feiras e praças. Apesar de vários convites, saiu poucas vezes de sua terra natal, pois era como a semente que germinou, atrelado à origem sertaneja. Ele via o homem da cidade com certa desconfiança e tinha orgulho da origem humilde. Foi amigo, entre outros, do educador Paulo Freire e do senador Darcy Ribeiro.


"(....)Sou um caboco rocêro

Sem letra e sem istrução;

O meu verso tem o chêro

Da poêra do sertão;

Vivo nesta solidade

Bem distante da cidade

Onde a ciença guverna.

Tudo meu é naturá,

Não sou capaz de gostá

Da poesia moderna. (...)"





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