sábado, 2 de abril de 2011

O CATADOR DE INSTANTES

Resolveu parar por um segundo de catar lixo para contemplar a manhã. Largou o saco no chão, fechou o container em que revirava alguns restos atrás de latas e alumínio. O amanhecer presenteava a cidade com um outro cenário. Havia mais bonitezas do que costume. O sol brilhava, não havia nuvens no céu. Por um instate, deixou-se cegar pela luz forte do astro rei que lhe completou de certo sentimento.

A rua silenciara depois da noite agitada da metrópole. Os carros deram espaço para passarinhos que pousavam nos fios de luz visíveis e dançavam feito equilibristas de circo. Dava para escutá-los, inquietos, queriam proclamar o silêncio que imperava depois de tantos dias de agitação. Repentinamente, conseguiu escutar o vento que sibiliva, enxergou duas senhoras que, contritas no silêncio, rumavam para a catedral, em busca da missa. Pensou em sua mãe já falecida e no pai que nem conhecera, porque a vida tem dessas coisas.

Resolveu sentar-se, ali, no meio da calçada. Os mais puritanos poderiam pensar que era um mendigo, mas ele não estava nem aí para o pensamento dos outros há muito tempo, desde que abandora tudo. Abriu a garrafa da água que carregava na cintura e sorveu um gole. De olhos fechados, o gosto da água misturou-se com o da liberdade, seu único vício. Em seguida respirou e continuou catando algum sinal do instante que lhe falava. Ao longe, ouvia sons de caminhão, mas muito ao longe.

Um cão sarnento apareceu-lhe pedindo carinho, que não foi negado. Os olhos do cão cruzaram-se com os dele e ficaram ali naquela cumplicidade, catando instantes. O animal resolveu sentar-se e ficaram os dois, esperando que algo os fizesse retomar seus rumos incertos. Nada se fez então e puderam saborear mais dos instantes, pedacinhos valiosos a quem não damos a devida importância. Mas eles sabiam. E ali ficavam, banhando-se aos raios do sol, na valeta da calçada, sob a testemunha do nada.

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