quinta-feira, 21 de abril de 2011

O CATADOR DE INSTANTES II

Então estavam os dois ali, duas criaturas a sorver aqueles minutos que pareceriam horas, que pareciam eternidades a serem buscadas por quem a nada pertence, nem tem a pretensão de pertecer. Quando o partilhar era somente ter a certeza de que estavam sós no mundo, e a única propriedade dos dois era a compania prestada pela solidariedade dividida, o silêncio foi interrompido pelo rosnar de um outro cão feroz, esse sim, de coleira e propriedade privada, tentando marcar terreno.

Era da raça pastor alemão e começou a lançar seu olhar de fúria sobre os dois que ali estavam. O catador resolveu recuar e levantar da calçada, enquanto o seu companheiro sarnento optou por devolver o olhar de ódio lançado pelo cão maior que rosnava afoito em busca de um duelo que poderia custar a vida de um deles.

Tentando aplacar a sede do amigo, mas sem resultado, escorou-se na parede enquanto ambos lançaram-se um contra o outro, num duelo sangrento. Rolavam pela calçada engalfilhando-se como galos de briga, numa fúria insandecida. Era possível ver os focinhos em riste, os caninos cravando-se nas jugulares, numa atrocidade selvagem. Os ritos eram de uma violência e volúpia, onde eros e tanatos misturam-se em meio as carnes vivas de cães na cólera do embate. Pálido e incrédulo, o catador ficou sem ação. Estava dividido entre interceder e levar a pior ou fugir para não presenciar o final que se aproximava. Não conseguiu decidir-se, paralisado pelo medo.


Logo a lei do mais forte venceu e seu companheiro de contemplação começou a gonizar. Havia sangue por todas as partes e as criaturas envolvidas naquela violência explícita já não se distinguiam diante da sangraria que se mostrava. O pastor alemão deu o golpe fatal e resolveu abandonar o local, enquanto o sarnento parecia abandonar aquele corpo que lhe abrigara pela existência. A respiração do animal foi diminuindo e, entre sangue e horror, o catador se aproximou, desfalecendo sob os joelhos. Ali, ao lado do amigo, um minuto de silêncio. Por momentos, a manhã que parecia bela e ensolarada, fez-se nublar. Com alguns jornais tirados da lata do lixo, cobriu o amigo que partira, tendo como cenário minutos de horror. Um pouco aturdido, tomou outro rumo da rua, tentando compreender o experenciado, o que não era possível, pois o choque o alienara de qualquer pensamento plausível. Deixou-se levar pelas pernas e tomou rumo pelo desconhecido. Seria a vida a difícil decisão entre lançar na arena da luta ou fugir dela, preferindo a segurança da platéia diante do espetáculo da degradação?

sábado, 2 de abril de 2011

O CATADOR DE INSTANTES

Resolveu parar por um segundo de catar lixo para contemplar a manhã. Largou o saco no chão, fechou o container em que revirava alguns restos atrás de latas e alumínio. O amanhecer presenteava a cidade com um outro cenário. Havia mais bonitezas do que costume. O sol brilhava, não havia nuvens no céu. Por um instate, deixou-se cegar pela luz forte do astro rei que lhe completou de certo sentimento.

A rua silenciara depois da noite agitada da metrópole. Os carros deram espaço para passarinhos que pousavam nos fios de luz visíveis e dançavam feito equilibristas de circo. Dava para escutá-los, inquietos, queriam proclamar o silêncio que imperava depois de tantos dias de agitação. Repentinamente, conseguiu escutar o vento que sibiliva, enxergou duas senhoras que, contritas no silêncio, rumavam para a catedral, em busca da missa. Pensou em sua mãe já falecida e no pai que nem conhecera, porque a vida tem dessas coisas.

Resolveu sentar-se, ali, no meio da calçada. Os mais puritanos poderiam pensar que era um mendigo, mas ele não estava nem aí para o pensamento dos outros há muito tempo, desde que abandora tudo. Abriu a garrafa da água que carregava na cintura e sorveu um gole. De olhos fechados, o gosto da água misturou-se com o da liberdade, seu único vício. Em seguida respirou e continuou catando algum sinal do instante que lhe falava. Ao longe, ouvia sons de caminhão, mas muito ao longe.

Um cão sarnento apareceu-lhe pedindo carinho, que não foi negado. Os olhos do cão cruzaram-se com os dele e ficaram ali naquela cumplicidade, catando instantes. O animal resolveu sentar-se e ficaram os dois, esperando que algo os fizesse retomar seus rumos incertos. Nada se fez então e puderam saborear mais dos instantes, pedacinhos valiosos a quem não damos a devida importância. Mas eles sabiam. E ali ficavam, banhando-se aos raios do sol, na valeta da calçada, sob a testemunha do nada.