sexta-feira, 4 de março de 2011

SENHORA LYGIA


Em minhas andanças pela amada e caótica São Paulo, costumo caminhar pela rua da Consolação, no bairro dos Jardins, na esperança de encontrar-me, por acaso, com ela. Lygia Fagundes Telles mora com a sobrinha, estudante de Letras, próxima à avenida Paulista, e costuma andar pela região todos os dias em contemplação. Porém, minhas investidas têm sido em vão porque nunca me encontrei com essa dama das letras brasileiras. Por enquanto, me contento com os deliciosos textos da autora de Ciranda de Pedra e As Meninas. Dentre eles, atualmente exploro Durante aquele estranho chá - achados e perdidos, livro de crônicas selecionadas a partir de escritos que estavam no "fundo da gaveta". No estilo delicado e cuidadoso das palavras carinhosas, estão lá registrados memórias dos encontros de Lygia com personalidades talentosas das letras do séxulo XX, como Hilda Hilst, Mario de Andrade, Sartre, Simone de Beauvoir, Glauber Rocha entre tantos. Em cada crônica, o tom da intimidade compartilhada. O leitor é premiado com o melhor olhar sobre as pequenas e sentidas coisas.
Com Mario de Andrade, por exemplo, está a estudante de direito Lygia, tímida ainda com os primeiros escritos a serem aprovados pelo "professor Mario", num chá das cinco bem inglês, na confeitaria Vienna, imediações do Largo São Francisco, na Faculdade de Direito Paulista. Com Simone de Beauvoir, as confissões de uma mulher livre e solitária em um apartamento em Paris, também regado a Chá e certa intimidade. Com Glauber, as lembranças do cinema novo no apartamento da rua Sabará, no bairro Higienópolis, em Sampa, junto ao marido, o cineasta Paulo Emílio, o filho Goffredo e os dois gatos. Com Hilda, o testemunho da ascenção poética da autora, misturada com excentricidade. Os laços permanentes de amizades que duraram até o falecimento da autora na década de noventa. Lygia, sempre compreensiva, conheceu Hilda num sarau poético da capital e, mesmo depois do isolamento na Casa do Sol, nos arredores de Campinas, não deixou de visitá-la. Lá passou os últimos e derradeiros momentos. A literatura celebrava a amizade entre essas duas damas.
Em meio a todos esses encontros intimistas, o leitor pode compartilhar crônicas de um século de efervescência da arte, tão distoante do momento atual, marcado pela pausterização de nossos gostos tão dúbios e mercantilizados. É a arte moderna. Durante aquele estranho chá é testemunho de uma época que o artista era livre para criar e arriscar com liberdade. Tempo em que se encontrar era motivo para acalorar nossas ambições intelectuais, sem qualquer tipo de arrogância. Era a essencial conspiração dos criativos. E eu continuo, em minhas caminhadas, pelos Jardins da Consolação, na esperança de encontrar a senhora Lygia.

Um comentário:

Jana disse...

Quero ler esse livro.

Me sinto tão feliz quando leio seus textos. Você não imagina o quanto.

:)