quarta-feira, 2 de março de 2011

O DESVER DO MUNDO



Menino do Mato - Manoel de Barros


Eu queria usar palavras de ave para escrever.

Onde a gente morava era um lugar imensamente e sem nomeação.

Ali a gente brincava de brincar com as palavras

tipo assim: Hoje eu vi uma formiga ajoelhada na pedra!

A Mãe que ouvira a brincadeira falou:

Já vem você com as suas visões!

Porque formigas nem tem joelhos ajoelháveis

e nem há pedras de sacristia por aqui.

Isto é traquinagem de sua imaginação.

O menino tinha no olhar um silêncio de chão

e na sua voz uma candura de fontes.

O Pai achava que a gente queria desver o mundo

para encontrar nas palavras novas coisas de ver

assim: eu via a manhã pousada sobre as margens do rio

do mesmo modo que uma garça aberta na solidãode uma pedra.

Eram novidades que os meninos criavam com as suas palavras.

Assim Bernardo emendou nova criação:

Eu hoje vi um sapo com olhar de árvore.

Então era preciso desver o mundo para sair daquele lugar

imensamente e sem lado.

A gente queria encontrar imagens de aves abençoadas pela inocência.

O que a gente aprendia naquele lugar era só ignorâncias

para a gente bem entender a voz das águas e dos caracóis.

A gente gostava das palavras

quando elas perturbavam o sentido normal das ideias.

Porque a gente também sabia

que só os absurdos enriquecem a poesia.

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