domingo, 27 de março de 2011

CORA CORALINA COR DE GOIÁS








"Morta... serei árvore

serei tronco, serei fronde

e minhas raízes

enlaçadas às pedras de meu berço

são as cordas que brotam de uma lira


(...)


Não morre aquele

que deixou na terra

a melodia de seu cântico

na música de seus versos."


Nesses dias de lirismo e muita chuva, me encanto com os versos daquela que foi a maior poetisa de Goiás. Cora Coralina foi tema de exposição temporário no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, no ano de 2009. Não há como não se encantar com seus versos simples, cheios de alusão à vida pequena. São sinestesia pura que exalam otimismo e remetem à casa da ponte onde nasceu, em Goiás Velho, hoje museu Cora Coralina.

Nos versos da poeta, os temas são as ruas estreitas, as lavadeiras, o velho quintal, o tacho de cobre, o doce de figo.... Sim, Cora era poetisa e doceira, fazia geléias e doces como ninguém. Diante da ostentação de hoje, observar seu quarto onde guardava suas poucas roupas, sua cama de jiquitibá, a cômoda com nossa senhora e o crucifixo lembram que precisamos de pouco quando a catarse nos alimenta e a arte nos completa. Se existe sabedoria no viver, Cora foi um desses seres humanos que da doçura do viver provou. O que ensina está na sua história de poemas e sabores.


Viveu até os 96 anos e cheia de existência, ainda receita otimismo e perseverança, mesmo diante da pior das misérias da tristeza. Foi sua ideia criar o dia do vizinho, propagado até hoje pelos goianenses como sagrado. Ela se considerava mais doméstica do que intelectual. Foi o poeta Drummond seu padrinho e que chamou atenção sobre seus versos nacionalmente, já aos setenta anos.


Amiga de Zelia e Jorge Amado, Cora Coralina lembra a sabedoria de nossos avós, parece até ser uma personagem da literatura saída dos contos de fada, de rugas marcadas, cabelo branco, cheia de rezas, receitas deliciosas, colo que acolhe e versos que cheiram a marmelada cozida no tacho de cobre.




"Ajuntei todas as pedras

que vieram sobre mim.

Levantei uma escada muito alta

e no alto subi.

Teci um tapete floreado

e no sonho me perdi."



2 comentários:

blogdavan disse...

Oi Samuel!!!
Que sedutor esse seu texto sobre a Cora Coralina. Palavras certas, na dose devida, para ilustrar uma de nossas importantes escritoras.... Mto bom de ler/sentir!

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A propósito: Que convite maravilhoso me fizeste, Samuel! Claro que topo ministrar a disciplina de poesia na sala de aula, com maior prazer.
Pode já colocar meu nome na lista de profes!!! Anote meu telefone, caso precisar: 54-99840442. Ahhh, e obrigado por lembrar de mim para essa disciplina.
Abs, Vania

Jessica disse...

Samu, adorei esse texto sobre a Cora! Tudo de bom mesmo! Me deu saudades da exposição que vimos dela no museo da língua portuguesa.

Muito bom de ler as coisas que escreve!
te adoro...
bjs da coca