quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O BICHO MULHER


Uma mulher vai ao zoológico para descarregar sua dor de traída e busca, nos olhos dos animais, o abrandamento do ódio ou a cumplicidade da dor. Busca algo que se perdeu, mas permanece latente na persona. Esse é o motivo que pontua o conto de Clarice Lispector, intitulado O Búfalo, que encerra o sublime livro de contos Laços de Família. Perdoem os fãs de Felicidade Clandestina, mas Laços de Família expurga ironia na tradução das relações humanas, principalmente familiares, tornando-se, sem dúvida, o melhor livro de contos da autora. Essa mulher incógnita de O Búfalo transborda ódio e tristeza pungentes em cada passo que dá à procura do olhar cúmplice dos animais do zoológico. Ela inveja a alegria dos macacos que saltam de braços abertos, o ruminar dos camelos cansados, o silêncio do quati indiferente, para então degladiar-se com o semblante furioso do búfalo que a espreita de uma jaula, como o seu próprio lado obscuro da alma.
Na ânsia de vingança, essa mulher mal amada, escreve Clarice, "recomeçou a andar, agora apequenada, dura, os punhos de novo fortificados nos bolsos, a assassina incógnita, e tudo estava preso no seu peito. No peito que só sabia resignar-se, que só sabia suportar, só sabia pedir perdão, só sabia perdoar, que só aprendera a ter a doçura da infelicidade, e só aprendera a amar, a amar, a amar." As fronteiras entre o amor e o ódio, a autopiedade e a perda da estima são descritas em linhas tênues, representando de forma poética sentimentos tão antagônicos que brotam de uma alma contraditória e se fazem presentes quando os olhos da mulher se encontram com os do búfalo que a observa. Então como um julgamento divino, o ser da mulher transpõe-se do amor para o ódio e com eles se mistura e alterna. A leitura de O búfalo nos põem diante da bela e da fera que habita o mais improvável em todos nós. "E os olhos do búfalo, os olhos olharam seus olhos. E uma palidez tão funda foi trocada que a mulher se entorpeceu dormente. De pé, em sono profundo. Os olhos pequenos e vermelhos a olhavam. Os olhos do búfalo."

3 comentários:

arthur disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
arthur disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
arthur disse...

vamos ver se agora consigo postar direito (tô perdendo a habilidade)

Oi Samuel, acabei vindo parar aqui por conta de uma amiga em comum, dona Vania Marta, um serzinho maravilhoso que Deus criou, minha melhor amiga, diga-se de passagem. daí, como não vivo sem literatura e trocar impressões sobre este universo é sempre algo muito bom, acabei vindo até aqui e vi que tu curtes também Cora Coralina, Clarice, Lygia e volta e meia divaga sobre o universo feminino. Bom te ler, menino, e por favor, dê um pulo no meu tuíter @adriantunes, pois sou uma aficcionada por literatura e tenho um programa de tv chamado "a palavra é" e um programa de rádio, "depois de Clarice", que faço com outras amigas jornalistas, quem sabe um dia marcamos de trocar umas figuras sobre leituras e textos por a cá também? no mais, abraço e continue escrevendo. Adri Antunes

ps. ah, esse Arthur que aparece aí é o nosso estagiário, que deixou o e-mail aberto e eu fui escrevendo, coisas de computador público, ehe.