domingo, 19 de setembro de 2010

MEU CASO DE AMOR


Meu caso de amor com o edifício Copan começou depois do meu caso de amor com a cidade de São Paulo. Nasci no Rio Grande do Sul e vivi por 36 anos neste estado. Na adolescência gostava muito de ler e na escola, durante o ensino médio, apaixonei-me por aqueles artistas modernistas que agitaram Sampa na década de vinte do século passado.
Oswald, Mario, Tarsila, Anita, Caio Prado, Pagu.... O cenário era a paulicéia desvairada, o Teatro Municipal, a Rua Augusta, o Largo São Bento. Provocativos, inventivos, poetas, amantes, artistas. Meu sonho sempre foi morar em São Paulo. Apesar de ter nascido aqui, na serra gaúcha, nunca me senti gaúcho. Não gosto de churrasco, não tomo chimarrão, não sei andar a cavalo, no máximo sei a letra do hino rio-grandense. Mas amo Sampa, com suas calçadas sujas, sua poluição, aquela mistura de povos, raças, culturas, todos andando para frente, em ritmos e rumos diferentes, pelas ruas circulares que vão dar em lugar algum: ahhh, a Paulicéia Desvairada.
E ali, bem ali, na Ipiranga com a Consolação está aquela enorme onda, conhecida como Edifício Copan. Quando o vi pela primeira vez, em 2006, fiquei encantado e disse a mim mesmo: “ainda vou morar aqui”. E foi o que aconteceu em 2008, quando resolvi tirar o meu ano sabático.
Estava entediado do meu emprego de professor universitário e larguei tudo: um salário muito bom, comodidades, família, uma carreira em ascensão. Solteiro, mudei-me para Sampa, para o Copan, passando a residir no 20º andar, apartamento 2001. Fui trabalhar no comércio de livros, uma livraria, outro sonho acalentado. E assim posso dizer que esses 18 meses em Sampa foram os melhores de minha vida. Por motivos de trabalho, tive de retornar para o sul.
O Copan é um edifício organizadíssimo e muito limpo dentro da desorganização que é Sampa. É quase como um Oásis. Ali tem tudo que você precisa: padaria, barbearia, locadora, lanhouse, restaurantes, bares, enfim. Para mim, é um lugar mágico. Tenho uma coleção de fotos em meu Orkut e não canso de olhar para ele, nostálgico. Adoro lugares antigos, não acho graça nenhuma em edifícios novos, são todos iguais. Quem passa pela República, não tem como não se encantar com o Copan ou com o Edifício Itália. Uma pena que as autoridades e a população de São Paulo não dão a devida importância aquelas belezas do centro, sempre judiado, coitado.
Mas a administração do Copan é muito ágil, organizada e luta contra as marcas do tempo. Há anos pleiteia a reforma externa do prédio que, parece que vai sair do papel neste ano, graças a uma lei especial.
No tempo que vivi no Bloco B, no vigésimo andar, foram anos muito felizes. Fiz muitos amigos lá. As pessoas são muito cordiais no Copan, gente dos mais variados tipos: gente família, senhoras idosas solitárias, jovens descolados, hippies, executivos, bancários, travestis, todos convivendo num ambiente saudável, organizado, sem barulho, pois lá as leis funcionam e quem não respeitar está fora.
Falam que existe fantasma no Copan. Nunca vi e se existe são meus amigos, porque não me assustam, nem tiram meu sono. Tenho uma amiga que diz dividir seu apartamento com um. Mas é muita energia concentrada num mesmo lugar, com certeza. Muitos moradores, cerca de cinco mil. Gente que já morreu, se suicidou, amores desfeitos, amor em ebulição, hiiii o Copan tem de tudo.
Não gostava muito de freqüentar o elevador de serviço, porque sobe e desce de tudo por ele. Inclusive defuntos. Quando alguém falece lá, o corpo é transportado pelo elevador de serviço para a garagem.
Amo subir na cobertura. Lá existe um heliporto e uma pista de corrida desativada. É bom ficar lá em cima, olhando Sampa para perder a visão na selva de pedra. As nuvens lá em cima têm umas cores diferentes, são de um azul forte, e você se sente pequeno diante da imensidão de São Paulo. Talvez você se sinta realmente quem você é mesmo, um grão num universo.
É difícil encontrar palavras em que caiba todo o sentimento que tenho pelo Copan e por São Paulo. Fica tudo muito redundante. Mas o que sei que planejo retornar em breve para mais uma temporada e quiça definitivamente. Por enquanto, procuro na TV, no cinema, na Internet, cenários de filmes e novelas em que o personagem principal desta cidade continua sendo o endereço 200 da avenida Ipiranga.