sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A INVERSÃO DOS ARQUÉTIPOS


Reler Clarice Lispector é a oportunidade de revisitar um amor antigo, daqueles que não findam pelo término da paixão, mas dos que se desligam pela impossibilidade de prosseguir na necessidade da expressão, por isso permanecem. Amor e ausência, tensos. O contato com seu texto é um momento de encantamento com a palavra, do jogo entre o sentir e o significar, necessidade tantas vezes pontuada por Clarice como um movimento de impossibilidade e fuga.
Uma Aprendizagem, ou o Livro dos Prazeres (1969) foi escrito dez anos antes de sua morte. É uma obra singular que transita em torno das dúvidas existenciais da personagem título, Lorelay. Professora primária, apaixonada pelo professor de filosofia Ulisses, a mulher toma voz e realiza um confronto ao mesmo tempo sinestésico e mitológico com as figuras de um poema de Heine, a da sereia encantadora e do pescador encantado.
No texto, os arquétipos se invertem e temos uma heroína existencial transitando pelas agruras amorosas com um personagem masculino que a faz esperar. A epígrafe da obra, construída pela escritora, é uma confissão: "Este livro se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. Humildemente tentei escrevê-lo. Eu sou mais forte do que eu."
Essa recontagem às avessas rendem ao leitor atento belos momentos de lirismo e experimentação da linguagem. A seguir, transcrevo alguns deles.

"Não entender era tão vasto que ultrapassava qualquer entender - entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. Não era um não-entender como um simples de espírito. O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma bênção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez."


"Às vezes comparava-se às frutas, e desprezando sua aparência externa, ela se comia internamente, cheia do sumo vivo que era."


"Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si."


"Antes de se deitar foi ao terraço: uma lua cheia estava sinistra no céu. Então ela se banhou toda nos raios lunares e se sentiu profundamente límpida e tranquila".

Um comentário:

Jessica disse...

Obrigada pelo livro Samuca! Parece que ela estava "me vivendo" escreve a Lory. Foi muito bom, vivi e aprendi coisas novamente.

Obrigada mesmo...
Acho que se entregar ao outro é eternamente um aprendizado a si mesmo.

bjs