sábado, 28 de agosto de 2010

HAI-KAI do Leminsky



Coração

PRA CIMA

escrito em baixo

FRÁGIL

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A INVERSÃO DOS ARQUÉTIPOS


Reler Clarice Lispector é a oportunidade de revisitar um amor antigo, daqueles que não findam pelo término da paixão, mas dos que se desligam pela impossibilidade de prosseguir na necessidade da expressão, por isso permanecem. Amor e ausência, tensos. O contato com seu texto é um momento de encantamento com a palavra, do jogo entre o sentir e o significar, necessidade tantas vezes pontuada por Clarice como um movimento de impossibilidade e fuga.
Uma Aprendizagem, ou o Livro dos Prazeres (1969) foi escrito dez anos antes de sua morte. É uma obra singular que transita em torno das dúvidas existenciais da personagem título, Lorelay. Professora primária, apaixonada pelo professor de filosofia Ulisses, a mulher toma voz e realiza um confronto ao mesmo tempo sinestésico e mitológico com as figuras de um poema de Heine, a da sereia encantadora e do pescador encantado.
No texto, os arquétipos se invertem e temos uma heroína existencial transitando pelas agruras amorosas com um personagem masculino que a faz esperar. A epígrafe da obra, construída pela escritora, é uma confissão: "Este livro se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. Humildemente tentei escrevê-lo. Eu sou mais forte do que eu."
Essa recontagem às avessas rendem ao leitor atento belos momentos de lirismo e experimentação da linguagem. A seguir, transcrevo alguns deles.

"Não entender era tão vasto que ultrapassava qualquer entender - entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. Não era um não-entender como um simples de espírito. O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma bênção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez."


"Às vezes comparava-se às frutas, e desprezando sua aparência externa, ela se comia internamente, cheia do sumo vivo que era."


"Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si."


"Antes de se deitar foi ao terraço: uma lua cheia estava sinistra no céu. Então ela se banhou toda nos raios lunares e se sentiu profundamente límpida e tranquila".

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A VIDA COMO UM VARAL


Minha vida é como um varal...



Exponho-me como uma roupa esfregada

Jorram de minha boca lamentos

Palavras ao vento

Às vezes toscas, vorazes



Resultado de um pânico fremente

As roupas se agitam com vento

Dispersam-se em movimentos

Vão e voltam como palavras



Depois me entrego ao silêncio

introspecto de um tempo

parado e seco da tormenta

agitada, outrora voragem



É hora da coleta, pois já secas

as roupas vão adentro

as palavras, tecidas no ânimo

se calam, vencidas



Sonhava embalar-me

no colo de alguém

tal a roupa, roupa acolhida

nos braços de um bem