segunda-feira, 19 de julho de 2010

A VISITA DE CAIO




Por esses dias, lendo Pequenas Epifanias, de Caio Fernando Abreu, me dividia entre as palavras sempre bem dosadas que tentam desbravar a alma humana das crônicas do escritor e o barulho da chuva que caía no telhado. Penso que é um luxo hoje morarmos numa casa que possa proporcionar essa maravilha auditiva: o suave barulho da chuva que cai sobre uma brasilit (será que é assim que se grafa a marca do telhado de zinco?). Estava eu lá dividido entre as palavras que solapeiam das crônicas do Caio e o tilintar dos pingos de chuva. Resolvi deixar o livro de lado e dar uma espiadela no vidro embaçado da casa de minha mãe. E a paisagem lá estava: grama molhada, parede úmida, fog londrina. Asfalto deslizante, guarda-chuvas dançantes, pingos nos fios de luz que pareciam bondinhos circulando. No outro lado da rua avisto uma vidraça esfumaçada e atrás dela um olhar triste de uma senhora idosa. Ela parece tentar compreender o que se passa. Mas o que se passa, se não a própria vida? Volto para a poltrona, aconchego-me próximo ao fogão de lenha e retoma os escritos do Caio que dizem....

"Sentado à escrivaninha, de frente para a janela, estou vendo uma cena. Dia cinza. Atrás do vidro da janela, estou vendo uma cena. Há um casal parado na calçada da frente. São muito jovens. Ele deve ter no máximo 25 anos, ela pouco menos. Estão bem vestidos, devem pertencer a uma boa família dos Jardins. Não expio nada. Estou apenas sentado aqui, onde costumo sentar para escrever. A cena acontece no meu campo de visão, só poderia evitá-la saindo daqui. Mas quero ver.
Sobem devagar a ladeira. De repente param na frente da lojinha de surf. Ele encosta no muro. Usa óculos, tem as mãos nos bolsos. Ela fica andando pela calçada da frente em frente a casinha azul, sob o letreiro de "Waimea", com arabescos que tanto podem lembrar ondas quanto gaivotas. Começo a prestar atenção no momento em que percebo: a garota está chorando. Ela chora e fala e gesticula muito enquanto chora.
São três e meia da tarde de domingo. Há uma garota chorando na calçada em frente ao meu apartamento. Faz frio. Um grupo de senhoras muito elegantes em suas peles de lã sai do edifício ao lado. Mas não olham para o casal. Não sei porque essa educação paulistana, meio londrina, onde a aparente frieza disfarça cumplicidade e respeito - ou mera indiferença, pode ser. Afinal que importância tem uma garota chorando e um rapaz de óculos às três e quarenta e cinco da tarde de um domingo?
O rapaz agora caminha até um carro estacionado no meio fio. Está de costas prá mim. Tira as mãos do bolso. A garota tira o casaco - um casaco jeans, forrado de pele de carneiro. Chega mais perto dele. Ás vezes ele ergue o rosto para o céu cinza. Há muita dor no rosto que ela ergue para o céu cinza. Ela tem o cabelo liso, comprido, castanho-claro, uma mecha mais loura do lado esquerdo. Ele tem o cabelo bem preto, bem curto. Ela chega mais perto dele. Ele tira os óculos, começa a limpar as lentes na barra do suéter.
Ás vezes ficam parados. Quando ficam parados assim enquadrados pela moldura da minha janela, parecem uma fotografia. À esquerda esse edifício construído de perfil, com a pequena alameda que leva o portão de ferro até a portaria, muitas árvores e meia dúzia de azaléias bordô (das primeiras desta temporada). À esquerda, a lojinha de surf, toda azul, com um grafite ao lado da porta: o rosto que Alex Valluari tinha. No centro, o carro onde está encostado o rapaz vestido em tons de cinza e a garota vestida em tons de azul. Quase quatro da tarde, só há cor nas azaléias e na fachada da lojinha de artigos de surf.
Ela ronda em volta dele, falando sem parar, chegando cada vez mais perto. Eu acendo um cigarro. Ela o abraça. Ele não se move, nem descruza os braços. Ele não se move enquanto ela o abraça cada vez mais forte. Ela começa a beijá-lo. Ele não recusa, apenas vira delicadamente o rosto para o lado onde a rua desce. Assim, ela só consegue beijá-lo no pescoço e na face. Na boca, não. Ela só pára de beijá-lo para afastar os cabelos do rosto e, de vez em quando, olhar o céu cinza.
Agora, ela afasta o rosto e fica abraçada nele. Da minha janela posso ver os braços dela cruzados as costas dele. Ele voltou a colocar as mãos nos bolsos. De repente, elao toma pelo braço e começa a puxá-lo para cima, par aonde a ladeira sobre. Ele caminha olhando para o chão. Ela joga o casaco nas costas, afasta os cabelos, levanta o rosto. Parece decidida. Eles começam a subir a ladeira. Até sumirem do quadrado da janela. Certamente, da minha vida também.
São quatro horas e cinco minutos. Não acontece mais cena alguma do lado de fora da minha janela. Talvez tome mais um café, fume outro cigarro, qualquer coisa assim. Foi exatamente há um ano, na lua cheia de maio. Depois, nunca mais. Por onde você tem andado, baby?"


Coloco o marcador de páginas, fecho o livro e o deposito sobre a poltrona. Saio correndo em direção a janela. Vejo a vidraça esfumaçada, mas o rosto daquela estranha e idosa mulher não está mais lá. Será que algum dia lá esteve? A visão confunde-se com o sonho ou a ilusão. Como a fumaça do cigarro, a névoa cai sobre a cidade. Fog ou miragem? Volta a chover. Realmente escutar os pingos da chuva a partir do telhado de zinco torna-se uma experiência de dimensões oníricas. E eu volto para degustar mais uma crônica do saudoso senhor Fernando Abreu.




domingo, 18 de julho de 2010

A VOLTA

O que pode mais nos angustiar nos dias de hoje senão essa desastrada possibilidade de vivermos por múltiplas escolhas? Sim, esse livre-arbritrio que nos toma tão de repende em meio ao tédio e a melancolia? Como Édipo, estamos sempre lutando contra nossa própria origem. Há sempre um desagrado que nos faz rebelar contra nossa própria cidade. Agora, digo, por hora, cansei. Cansei desse papel de filho pródigo e que venha essa cidade, cheia de imperfeições. Não pertenço a ela, pertenço a um não lugar, sou do mundo, estou aqui de passagem. E decidi aceitar o lugar em que vivo.
Londres, Paris, Milão, São Paulo, Caxias do Sul... Não importa o lugar, não importa o tempo, as caracterísicas da cidades, suas imperfeições. Estamos de passagem. Onde quer que vivamos, provaremos alegrias, tristezas, revoltas. As cidades são como nós, imperfeitas, cheia de defeitos, qualidades. Acho importante amarmos esses defeitos como amamos a nós mesmos. Sim, dessa forma cultivaremos a tolerância, a solidariedade, nos inflaremos contra aqueles que querem arrancar árvores, não estaremos indiferentes aqueles que sofrem e vagam pelas ruas, receberemos abraços, poderemos respirar o ar puro que vem das árvores.
Enfim, também poderemos beijar quem amamos, contemplar a paisagem que nos emociona. É bom retornar, é bom estar em casa, mas que casa se o mundo é insuficiente para acalmar essa vontade louca que nos toma de repente de colocarmos os pés na estrada e novamente experimentar novos lugares. Talvez a melhor idéia seja a de aceitar mesmo que estamos aqui de passagem.