sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Um pouco de Quintana


Os poemas são pássaros que chegam
não se sabe de onde e pousam
no livro que lês.
Quando fechas o livro, eles alçam vôo
como de um alçapão
Eles não tem pouso
nem porto
alimentam-se um instante em cada par de mãos
e partem.
E olhas, então, essas tuas mãos vazias,
no maravilhoso espanto de saberes
que o alimento deles já estava em ti...

domingo, 19 de setembro de 2010

MEU CASO DE AMOR


Meu caso de amor com o edifício Copan começou depois do meu caso de amor com a cidade de São Paulo. Nasci no Rio Grande do Sul e vivi por 36 anos neste estado. Na adolescência gostava muito de ler e na escola, durante o ensino médio, apaixonei-me por aqueles artistas modernistas que agitaram Sampa na década de vinte do século passado.
Oswald, Mario, Tarsila, Anita, Caio Prado, Pagu.... O cenário era a paulicéia desvairada, o Teatro Municipal, a Rua Augusta, o Largo São Bento. Provocativos, inventivos, poetas, amantes, artistas. Meu sonho sempre foi morar em São Paulo. Apesar de ter nascido aqui, na serra gaúcha, nunca me senti gaúcho. Não gosto de churrasco, não tomo chimarrão, não sei andar a cavalo, no máximo sei a letra do hino rio-grandense. Mas amo Sampa, com suas calçadas sujas, sua poluição, aquela mistura de povos, raças, culturas, todos andando para frente, em ritmos e rumos diferentes, pelas ruas circulares que vão dar em lugar algum: ahhh, a Paulicéia Desvairada.
E ali, bem ali, na Ipiranga com a Consolação está aquela enorme onda, conhecida como Edifício Copan. Quando o vi pela primeira vez, em 2006, fiquei encantado e disse a mim mesmo: “ainda vou morar aqui”. E foi o que aconteceu em 2008, quando resolvi tirar o meu ano sabático.
Estava entediado do meu emprego de professor universitário e larguei tudo: um salário muito bom, comodidades, família, uma carreira em ascensão. Solteiro, mudei-me para Sampa, para o Copan, passando a residir no 20º andar, apartamento 2001. Fui trabalhar no comércio de livros, uma livraria, outro sonho acalentado. E assim posso dizer que esses 18 meses em Sampa foram os melhores de minha vida. Por motivos de trabalho, tive de retornar para o sul.
O Copan é um edifício organizadíssimo e muito limpo dentro da desorganização que é Sampa. É quase como um Oásis. Ali tem tudo que você precisa: padaria, barbearia, locadora, lanhouse, restaurantes, bares, enfim. Para mim, é um lugar mágico. Tenho uma coleção de fotos em meu Orkut e não canso de olhar para ele, nostálgico. Adoro lugares antigos, não acho graça nenhuma em edifícios novos, são todos iguais. Quem passa pela República, não tem como não se encantar com o Copan ou com o Edifício Itália. Uma pena que as autoridades e a população de São Paulo não dão a devida importância aquelas belezas do centro, sempre judiado, coitado.
Mas a administração do Copan é muito ágil, organizada e luta contra as marcas do tempo. Há anos pleiteia a reforma externa do prédio que, parece que vai sair do papel neste ano, graças a uma lei especial.
No tempo que vivi no Bloco B, no vigésimo andar, foram anos muito felizes. Fiz muitos amigos lá. As pessoas são muito cordiais no Copan, gente dos mais variados tipos: gente família, senhoras idosas solitárias, jovens descolados, hippies, executivos, bancários, travestis, todos convivendo num ambiente saudável, organizado, sem barulho, pois lá as leis funcionam e quem não respeitar está fora.
Falam que existe fantasma no Copan. Nunca vi e se existe são meus amigos, porque não me assustam, nem tiram meu sono. Tenho uma amiga que diz dividir seu apartamento com um. Mas é muita energia concentrada num mesmo lugar, com certeza. Muitos moradores, cerca de cinco mil. Gente que já morreu, se suicidou, amores desfeitos, amor em ebulição, hiiii o Copan tem de tudo.
Não gostava muito de freqüentar o elevador de serviço, porque sobe e desce de tudo por ele. Inclusive defuntos. Quando alguém falece lá, o corpo é transportado pelo elevador de serviço para a garagem.
Amo subir na cobertura. Lá existe um heliporto e uma pista de corrida desativada. É bom ficar lá em cima, olhando Sampa para perder a visão na selva de pedra. As nuvens lá em cima têm umas cores diferentes, são de um azul forte, e você se sente pequeno diante da imensidão de São Paulo. Talvez você se sinta realmente quem você é mesmo, um grão num universo.
É difícil encontrar palavras em que caiba todo o sentimento que tenho pelo Copan e por São Paulo. Fica tudo muito redundante. Mas o que sei que planejo retornar em breve para mais uma temporada e quiça definitivamente. Por enquanto, procuro na TV, no cinema, na Internet, cenários de filmes e novelas em que o personagem principal desta cidade continua sendo o endereço 200 da avenida Ipiranga.

sábado, 28 de agosto de 2010

HAI-KAI do Leminsky



Coração

PRA CIMA

escrito em baixo

FRÁGIL

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

A INVERSÃO DOS ARQUÉTIPOS


Reler Clarice Lispector é a oportunidade de revisitar um amor antigo, daqueles que não findam pelo término da paixão, mas dos que se desligam pela impossibilidade de prosseguir na necessidade da expressão, por isso permanecem. Amor e ausência, tensos. O contato com seu texto é um momento de encantamento com a palavra, do jogo entre o sentir e o significar, necessidade tantas vezes pontuada por Clarice como um movimento de impossibilidade e fuga.
Uma Aprendizagem, ou o Livro dos Prazeres (1969) foi escrito dez anos antes de sua morte. É uma obra singular que transita em torno das dúvidas existenciais da personagem título, Lorelay. Professora primária, apaixonada pelo professor de filosofia Ulisses, a mulher toma voz e realiza um confronto ao mesmo tempo sinestésico e mitológico com as figuras de um poema de Heine, a da sereia encantadora e do pescador encantado.
No texto, os arquétipos se invertem e temos uma heroína existencial transitando pelas agruras amorosas com um personagem masculino que a faz esperar. A epígrafe da obra, construída pela escritora, é uma confissão: "Este livro se pediu uma liberdade maior que tive medo de dar. Ele está muito acima de mim. Humildemente tentei escrevê-lo. Eu sou mais forte do que eu."
Essa recontagem às avessas rendem ao leitor atento belos momentos de lirismo e experimentação da linguagem. A seguir, transcrevo alguns deles.

"Não entender era tão vasto que ultrapassava qualquer entender - entender era sempre limitado. Mas não-entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. Não era um não-entender como um simples de espírito. O bom era ter uma inteligência e não entender. Era uma bênção estranha como a de ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez."


"Às vezes comparava-se às frutas, e desprezando sua aparência externa, ela se comia internamente, cheia do sumo vivo que era."


"Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si."


"Antes de se deitar foi ao terraço: uma lua cheia estava sinistra no céu. Então ela se banhou toda nos raios lunares e se sentiu profundamente límpida e tranquila".

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

A VIDA COMO UM VARAL


Minha vida é como um varal...



Exponho-me como uma roupa esfregada

Jorram de minha boca lamentos

Palavras ao vento

Às vezes toscas, vorazes



Resultado de um pânico fremente

As roupas se agitam com vento

Dispersam-se em movimentos

Vão e voltam como palavras



Depois me entrego ao silêncio

introspecto de um tempo

parado e seco da tormenta

agitada, outrora voragem



É hora da coleta, pois já secas

as roupas vão adentro

as palavras, tecidas no ânimo

se calam, vencidas



Sonhava embalar-me

no colo de alguém

tal a roupa, roupa acolhida

nos braços de um bem

segunda-feira, 19 de julho de 2010

A VISITA DE CAIO




Por esses dias, lendo Pequenas Epifanias, de Caio Fernando Abreu, me dividia entre as palavras sempre bem dosadas que tentam desbravar a alma humana das crônicas do escritor e o barulho da chuva que caía no telhado. Penso que é um luxo hoje morarmos numa casa que possa proporcionar essa maravilha auditiva: o suave barulho da chuva que cai sobre uma brasilit (será que é assim que se grafa a marca do telhado de zinco?). Estava eu lá dividido entre as palavras que solapeiam das crônicas do Caio e o tilintar dos pingos de chuva. Resolvi deixar o livro de lado e dar uma espiadela no vidro embaçado da casa de minha mãe. E a paisagem lá estava: grama molhada, parede úmida, fog londrina. Asfalto deslizante, guarda-chuvas dançantes, pingos nos fios de luz que pareciam bondinhos circulando. No outro lado da rua avisto uma vidraça esfumaçada e atrás dela um olhar triste de uma senhora idosa. Ela parece tentar compreender o que se passa. Mas o que se passa, se não a própria vida? Volto para a poltrona, aconchego-me próximo ao fogão de lenha e retoma os escritos do Caio que dizem....

"Sentado à escrivaninha, de frente para a janela, estou vendo uma cena. Dia cinza. Atrás do vidro da janela, estou vendo uma cena. Há um casal parado na calçada da frente. São muito jovens. Ele deve ter no máximo 25 anos, ela pouco menos. Estão bem vestidos, devem pertencer a uma boa família dos Jardins. Não expio nada. Estou apenas sentado aqui, onde costumo sentar para escrever. A cena acontece no meu campo de visão, só poderia evitá-la saindo daqui. Mas quero ver.
Sobem devagar a ladeira. De repente param na frente da lojinha de surf. Ele encosta no muro. Usa óculos, tem as mãos nos bolsos. Ela fica andando pela calçada da frente em frente a casinha azul, sob o letreiro de "Waimea", com arabescos que tanto podem lembrar ondas quanto gaivotas. Começo a prestar atenção no momento em que percebo: a garota está chorando. Ela chora e fala e gesticula muito enquanto chora.
São três e meia da tarde de domingo. Há uma garota chorando na calçada em frente ao meu apartamento. Faz frio. Um grupo de senhoras muito elegantes em suas peles de lã sai do edifício ao lado. Mas não olham para o casal. Não sei porque essa educação paulistana, meio londrina, onde a aparente frieza disfarça cumplicidade e respeito - ou mera indiferença, pode ser. Afinal que importância tem uma garota chorando e um rapaz de óculos às três e quarenta e cinco da tarde de um domingo?
O rapaz agora caminha até um carro estacionado no meio fio. Está de costas prá mim. Tira as mãos do bolso. A garota tira o casaco - um casaco jeans, forrado de pele de carneiro. Chega mais perto dele. Ás vezes ele ergue o rosto para o céu cinza. Há muita dor no rosto que ela ergue para o céu cinza. Ela tem o cabelo liso, comprido, castanho-claro, uma mecha mais loura do lado esquerdo. Ele tem o cabelo bem preto, bem curto. Ela chega mais perto dele. Ele tira os óculos, começa a limpar as lentes na barra do suéter.
Ás vezes ficam parados. Quando ficam parados assim enquadrados pela moldura da minha janela, parecem uma fotografia. À esquerda esse edifício construído de perfil, com a pequena alameda que leva o portão de ferro até a portaria, muitas árvores e meia dúzia de azaléias bordô (das primeiras desta temporada). À esquerda, a lojinha de surf, toda azul, com um grafite ao lado da porta: o rosto que Alex Valluari tinha. No centro, o carro onde está encostado o rapaz vestido em tons de cinza e a garota vestida em tons de azul. Quase quatro da tarde, só há cor nas azaléias e na fachada da lojinha de artigos de surf.
Ela ronda em volta dele, falando sem parar, chegando cada vez mais perto. Eu acendo um cigarro. Ela o abraça. Ele não se move, nem descruza os braços. Ele não se move enquanto ela o abraça cada vez mais forte. Ela começa a beijá-lo. Ele não recusa, apenas vira delicadamente o rosto para o lado onde a rua desce. Assim, ela só consegue beijá-lo no pescoço e na face. Na boca, não. Ela só pára de beijá-lo para afastar os cabelos do rosto e, de vez em quando, olhar o céu cinza.
Agora, ela afasta o rosto e fica abraçada nele. Da minha janela posso ver os braços dela cruzados as costas dele. Ele voltou a colocar as mãos nos bolsos. De repente, elao toma pelo braço e começa a puxá-lo para cima, par aonde a ladeira sobre. Ele caminha olhando para o chão. Ela joga o casaco nas costas, afasta os cabelos, levanta o rosto. Parece decidida. Eles começam a subir a ladeira. Até sumirem do quadrado da janela. Certamente, da minha vida também.
São quatro horas e cinco minutos. Não acontece mais cena alguma do lado de fora da minha janela. Talvez tome mais um café, fume outro cigarro, qualquer coisa assim. Foi exatamente há um ano, na lua cheia de maio. Depois, nunca mais. Por onde você tem andado, baby?"


Coloco o marcador de páginas, fecho o livro e o deposito sobre a poltrona. Saio correndo em direção a janela. Vejo a vidraça esfumaçada, mas o rosto daquela estranha e idosa mulher não está mais lá. Será que algum dia lá esteve? A visão confunde-se com o sonho ou a ilusão. Como a fumaça do cigarro, a névoa cai sobre a cidade. Fog ou miragem? Volta a chover. Realmente escutar os pingos da chuva a partir do telhado de zinco torna-se uma experiência de dimensões oníricas. E eu volto para degustar mais uma crônica do saudoso senhor Fernando Abreu.




domingo, 18 de julho de 2010

A VOLTA

O que pode mais nos angustiar nos dias de hoje senão essa desastrada possibilidade de vivermos por múltiplas escolhas? Sim, esse livre-arbritrio que nos toma tão de repende em meio ao tédio e a melancolia? Como Édipo, estamos sempre lutando contra nossa própria origem. Há sempre um desagrado que nos faz rebelar contra nossa própria cidade. Agora, digo, por hora, cansei. Cansei desse papel de filho pródigo e que venha essa cidade, cheia de imperfeições. Não pertenço a ela, pertenço a um não lugar, sou do mundo, estou aqui de passagem. E decidi aceitar o lugar em que vivo.
Londres, Paris, Milão, São Paulo, Caxias do Sul... Não importa o lugar, não importa o tempo, as caracterísicas da cidades, suas imperfeições. Estamos de passagem. Onde quer que vivamos, provaremos alegrias, tristezas, revoltas. As cidades são como nós, imperfeitas, cheia de defeitos, qualidades. Acho importante amarmos esses defeitos como amamos a nós mesmos. Sim, dessa forma cultivaremos a tolerância, a solidariedade, nos inflaremos contra aqueles que querem arrancar árvores, não estaremos indiferentes aqueles que sofrem e vagam pelas ruas, receberemos abraços, poderemos respirar o ar puro que vem das árvores.
Enfim, também poderemos beijar quem amamos, contemplar a paisagem que nos emociona. É bom retornar, é bom estar em casa, mas que casa se o mundo é insuficiente para acalmar essa vontade louca que nos toma de repente de colocarmos os pés na estrada e novamente experimentar novos lugares. Talvez a melhor idéia seja a de aceitar mesmo que estamos aqui de passagem.