quinta-feira, 15 de maio de 2008

Falsos afetos - um conto autoral

Havia pouco tempo que retornara a estudar. Estava afastado das atividades acadêmicas há sete anos. O espaço físico era o mesmo e a sombra da árvore que deixara estava ainda lá, com a mesma geografia desenhada no chão de pedra. Sento no banco à soleira da árvore e fico observando os transeuntes. Nenhum rosto conhecido. Lembro dos professores que por muito tempo ali passavam, dos ensinamentos, do café no bar do Antônio, das conversas acaloradas sobre literatura, dos afetos. De repente, uma conhecida. Aproximo-me. Gentilezas do ofício, poucas palavras, nenhum sorriso. Então questiono "e a professora tal, por onde anda?" - "aposentou-se!", e a "fulana de tal" - "faleceu, não soube!" Despedidas cordiais, porém distantes. De volta a sombra geográfica, procuro um rosto na multidão que agora se dissipa. Horário de aula. Em direção ao ônibus, um pouco de excitação: vejo um semblante familiar. Mudo então o rumo em direção a pessoa. O sorriso brota. É ela. Aquela que me fez apaixonar pelas leituras dos poetas, dos flanners. Estava pouco mudada e continuava elegante. Aproximo-me e o coração bate mais forte. Ensaio um abraço. Lasco-lhe um beijo. Adeus nostalgia! É ótimo estar de volta. Em seguida, pânico, a esperança se desfaz. Os passos dela são mais rápidos. A simpatia dá lugar a formalidade. Ela se afasta e eu permaneço lá, estático. Simulo uns passos para não parecer o que sou, patético. Decido partir do local, com um misto de decepção e tristeza. O passado morreu. E com ele os laços que pensei ter com aquele lugar. Nostalgia dói. Nessa dor doída, ela nos confirma que tudo é impermanente. As pessoas mudam e as verdadeiras amizades ou as que parecem ser são apenas ilusão do tempo, esse mentiroso.

3 comentários:

Jessica disse...

É, o tempo é mentiroso...
E completo com um trecho de Camões:

"(...)Oh! bem-aventurados fingimentos
que, nesta ausência, tão doces enganos
sabeis fazer aos tristes pensamentos!(...)"

p.s.: Hoje e ontem (já que estou repetindo o comentário por falaha técnica), muito adorei ler teu blog.hehehe.

Pobres&Nojentas disse...

Ainda um dia vou escrever sobre a geografia do conto e do romance, sentada nesse banco de raros afetos!

Mimi

Sopa de Letrinhas disse...

Profº Samuel
O conto é lindo porque nos remete ao passado que nunca morreu,apenas se escondeu;não deve ser triste e nem dolorido pois está guardado só na nossa alma,mas acima de tudo tem gostinho dos bolinhos da minha infância( que só existe na minha lembrança).
Eliane