terça-feira, 27 de maio de 2008

CURITIBA - cidade dos sebos



Outra atração da capital do Paraná é o Setor Histórico, onde há vários quarterões que abrigam construções antigas. Nesses locais imperam artesanato e, para os amantes da boa leitura, muitos sebos que vendem desde livros até objetos antigos. É uma volta ao tempo, literalmente.

CURITIBA - cidade e cultura



Um dos locais mais bonitos de Curitiba é o Bosque do Alemão (foto acima). Quem gosta de natureza, calmaria, plantas, flores e uma boa contação de histórias é altamente recomendável conhecer o local, já que mesmo parecendo pequeno, vai se revelando na medida em que o passeio se processa pelo visitante. Ao lado do pórtico maior há uma clareira que reproduz os caminhos de João e Maria, famosa história dos Irmãos Grimm. Esse caminho de pedra (foto abaixo) que percorre todo o bosque reproduz, em paradas, com formato de chapéu de bruxa, a história dos irmãos abandonados entregues aos mistérios da vida.



Também há árvores e plantas assustadoras, como mostra a foto abaixo.

Quem segue os passos da história chega a clareira ao meio da floresta, onde há uma fonte repleta de carpas grandes e uma casa (não de chocolate, este está mais ao final da trilha, numa barraca de doces feitos por uma senhora alemã muito prendada). No interior da casa está a bruxa, que não é a original do conto propriamente dito e sim uma bruxa boa (agora surpreendam-se!), uma bruxa dos pampas, como ela mesma se apresenta (foto abaixo). Ao seu redor, dezenas de crianças e mães se deixam encantar pelas histórias. A magia não morreu...



Mais ao final do percurso, uma porção de degraus que levam ao mirante, de onde Curitiba se mostra ainda mais bonita. Fim do passeio pelo Bosque Alemão.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Na natureza selvagem



Into the Wild, traduzido literamente como Na natureza selvagem, é uma adaptação da obra literária de mesmo título baseada nos diários de Christopher McCandless, um jovem americano que nos 70 que resolve abandonar o jeito americano de viver (baseado na carreira, família e dinheiro) para viver como um andarilho e cruzar todas as fronteiras do país até chegar ao Alasca, seu destino final. A adaptação do livro, feita por Sean Penn, que também assina a direção do filme, é um instrumento belo e provocador para os mais apegados ao estilo capitalista, como dinheiro, posição social e reconhecimento. Christopher, vivido pelo talentoso Emile Hirsch (o Sedwick, de O Clube do Imperador) convence no papel título, transferindo a personagem a força necessária tanto nos momentos de angústia, quanto nos de sabedoria. No caminho do jovem surge um casal hippie e um senhor de idade, quando o caráter conciliar e filosófico do desprendimento das coisas atinge sua porção mais assustadora e cruel. Poderá o homem viver alheio as coisas do mundo com sabedoria e resistir aos mistérios da natureza ao seu redor e a sua própria natureza? A direção do filme aposta nos vários pontos de vista da narrativa (o jovem, sua irmã e sua família) para reforçar as discussões a respeito das escolhas, suas perdas e seus ganhos. Um filme para refletir.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A cidade evadida respira

Grandes cidades parecem pequenos oásis em manhãs de feriado e domingo. Isso porque parte da população adormece ou se retira, sem estar condicionada ao relógio. O sol se espalha, os pássaros parecem cantar mais alto, as ruas estão semi-desertas, os carros desaparecem. Nunca gostei de carros. Não sei dirigir e não tenho a mínima pretensão de aprender. Prefiro andar a pé, sorver o ar, contemplar paisagens. No entanto, isso tem sido quase impossível na média-grande Caxias do Sul dos últimos tempos. A não ser nas manhãs de domingo e nos feriados, como este de hoje. Como um flanner, aquele ser que percorre as cidades em busca dos detalhes e das experiências, pela manhã desta quinta-feira foi possível sentir a cidade, amá-la, sem o ar poluído da semana ou os malditos carros, barulhentos, poluentes, com seus donos irados, ansiosos, quase indiferentes a paisagem da cidade, concentrados em seus voltantes. Sim porque dentro de um carro a visão do mundo é parcial, egoísta e difusa. Você não consegue disfrutar do céu na sua totalidade, só enxerga o que está a frente do seu nariz e a realidade acaba desfocada pelo retrovisor. Benditos feriados , benditas manhãs de domingo. A cidade volta a ser criança, se humaniza. Chegará o dia que os homens romperão com seus relógios, abandonarão seus carros e despidos da vaidade que os torna indiferentes se entregarão de corpo às cidades.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Manuel Bandeira e o eu-lírico teimoso


Vão demolir esta casa,
Mas meu quarto vai ficar,
Não como forma imperfeita
Neste mundo de aparências:
Vai ficar na eternidade,
Com seus livros, com seus quadros,
Intacto, suspenso no ar!

domingo, 18 de maio de 2008

QUEM DISSE QUE EU MUDEI?

Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na casa velha
[em que nasceu.

Mario Quintana

Adoradores de Livros


Após anos de pesquisa exaustiva e uma preparação cuidadosa, a Csac Naify relança a tradução de um dos clássicos da literatura norte-americana, Moby Dick. Escrito por Hermann Melville, o livro, que já teve três versões cinematográficas, conta a odisséia do homem mortal que se pensa Deus quando cego por seu ego. Publicado originalmente em 1851, é tecido pela narrativa de um marinheiro experenciado na arte de navegar, chamado Ishmael, que conta a última viagem de um navio a procura da enorme baleia branca que devorou a perna do vingativo capitão Ahab. A riqueza do ponto de vista do narrador explora várias nuances como relato de viagem, os sermões, a preleção, a filosofia, o cientificismo. Moby Dick é um mergulho na natureza humana permeada pela suas contradições, seus sonhos, medos e desafios. A edição cuidadosa e esteticamente deslumbrante da Cosac Naify agrada e muito os leitores fetichistas, desde o corpo da letra impressa até os detalhes das ondas que perpassam as páginas. Em tempos de rapidez e tecnologias, adquirir um exemplar de Moby Dick é realmente um luxo, dada a sua beleza estética e seu conteúdo arrebatador. A editora dispôs um site visualmente elaborado. Para acessá-lo, basta digitar: www. cosacnaify.com.br/noticias/mobydick/. Boa viagem.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Falsos afetos - um conto autoral

Havia pouco tempo que retornara a estudar. Estava afastado das atividades acadêmicas há sete anos. O espaço físico era o mesmo e a sombra da árvore que deixara estava ainda lá, com a mesma geografia desenhada no chão de pedra. Sento no banco à soleira da árvore e fico observando os transeuntes. Nenhum rosto conhecido. Lembro dos professores que por muito tempo ali passavam, dos ensinamentos, do café no bar do Antônio, das conversas acaloradas sobre literatura, dos afetos. De repente, uma conhecida. Aproximo-me. Gentilezas do ofício, poucas palavras, nenhum sorriso. Então questiono "e a professora tal, por onde anda?" - "aposentou-se!", e a "fulana de tal" - "faleceu, não soube!" Despedidas cordiais, porém distantes. De volta a sombra geográfica, procuro um rosto na multidão que agora se dissipa. Horário de aula. Em direção ao ônibus, um pouco de excitação: vejo um semblante familiar. Mudo então o rumo em direção a pessoa. O sorriso brota. É ela. Aquela que me fez apaixonar pelas leituras dos poetas, dos flanners. Estava pouco mudada e continuava elegante. Aproximo-me e o coração bate mais forte. Ensaio um abraço. Lasco-lhe um beijo. Adeus nostalgia! É ótimo estar de volta. Em seguida, pânico, a esperança se desfaz. Os passos dela são mais rápidos. A simpatia dá lugar a formalidade. Ela se afasta e eu permaneço lá, estático. Simulo uns passos para não parecer o que sou, patético. Decido partir do local, com um misto de decepção e tristeza. O passado morreu. E com ele os laços que pensei ter com aquele lugar. Nostalgia dói. Nessa dor doída, ela nos confirma que tudo é impermanente. As pessoas mudam e as verdadeiras amizades ou as que parecem ser são apenas ilusão do tempo, esse mentiroso.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Fragmentos do dia - Adélia Prado


Bem-aventurado o que pressentiu
quando a manhã começou:
não vai ser diferente da noite.
Prolongados permanecerão o corpo sem pouso,
o pensamento dividido entre deitar-se primeiro
à esquerda ou à direita
e mesmo assim anunciou paciente ao meio-dia:
algumas horas e já anoitece, o mormaço abranda,
um vento bom entra nessa janela.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

A vida dos outros

Produção alemã, A vida dos Outros levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano passado e se tornou um dos filmes mais vistos na Europa. Agora está disponível em DVD para apreciadores do bom cinema. A película remonta os anos da guerra fria e da decadência do socialismo na Alemanha Oriental. Trata da perseguição a um intelectual, o escritor Georg Dreyman (vivido por Sebastian Koch), suspeito de conspirar contra o governo, que passa a ser vigiado por um funcionário público de Departamento de Informação, o austero e dedicado Anton Grubitz (Ulrich Tukor). Ao escutar o seu algoz, ele passa a simpatizar com ele, suas idéias, a refletir sobre a situação política do país, deixando ou subvertendo as informações reais ao governo. Ao final, paga um preço por isso, mas tem sua dignidade desvelada por Dreyman, já numa Alemanha unificada e globalizada. O roteiro e a direção de Florian Henckel Von Dommersmarck dignificam o filme e fazem de A vida dos Outros um dos melhores thrillers políticos no melhor estilo Constantin Costa-Gavras ou do clássico 1984, de George Orwell.

domingo, 4 de maio de 2008

Um pouco de Hilda Hilst - sugestão da Jéssica

Se for possível, manda-me dizer:
- é lua cheia, a casa está vazia
manda-me dizer, e o paraíso
há de ficar mais perto, e mais recente
me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
tão longo como a noite.
Se é verdade
que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
de alguns peixes rosados
numas águas
e dos meus pés molhados,
manda-me dizer:
- é lua nova
e revestido de luz
te volto a ver.