sábado, 15 de novembro de 2008

REINVENÇÃO POR CECÍLIA

A vida só é possível reinventada.
Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas. . .
Ah! tudo bolhas
que vêm de fundas piscinas
de ilusionismo...
– mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.
Não te encontro, não te alcança...
Só - no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só - na trevas
fico: recebida e dada.
Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Cecília Meireles in Flor de poemas

terça-feira, 4 de novembro de 2008

PARA NOVEMBRO....

"No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas que o vento não conseguiu levar: um estribilho antigo, um carinho no momento preciso, o folhear de um livro, o cheiro que tinha um dia o próprio vento..." (Mário Quintana)

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

ESTANTE DE LIVROS


Livros e estantes sempre exercem fascinação. O lugar para guardá-los, colecioná-los, contemplá-los revela o nível de intimidade que o proprietário tem para com as idéias. A revista Vida Simples desse mês traz um especial sobre estantes de livros, que merece ser consultado (o site da revista está ao lado, no sites e blogs recomendados). A forma como uma livraria organiza os livros, a cor das estantes, o material da publicação, as folhas, demonstra a corporidade do livro. Já o canto da casa, do quarto, da sala onde os livros são deixados revelam-se espaços mais individualizados, refúgios de leitores que procuram no silêncio de seu auto-cohecimento e de sua intimidade se entregar à imaginação e as idéias. Lembro da casa do meu avô, onde tinha um quartinho de costura repleto de estantes com livros. Eram enciclopédias, compêndios, Tesouro da Juventude, um lugar mágico em que permanecia horas. Havia tantos mistérios para desbravar. Depois, quando meu avô faleceu, minhas tias derrubaram as estantes, não eram muito adeptas da leitura, e o quartinho ficou vazio, meio solitário. Monteiro Lobato dizia, "um país se faz de homens e livros". Já Mário Quintana, dizia "Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas". Eu já diria que a estante de livros é uma paisagem a ser percorrida com os olhos e como o coração. É um universo de possibilidades infindas, frases conservadas, sabedoria a espera de um leitor inquieto, uma "felicidade clandestina" para Clarice Lispector. Alguns dizem que as estantes de livros servem para mostrar aos outros como somos cultos. Eu já diria que elas são um convite para aguçar os sentidos, instigar a curiosidade. A maior demonstração de amizade que posso dar é emprestar um livro a alguém. Um livro é como uma declaração de amor a um amigo.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

CLARICE SEMPRE CLARICE


"Sou o que quero ser, porque possuo apenas uma vida e nela só tenho uma chance de fazer o que quero. Tenho felicidade o bastante para fazê-la doce, dificuldades para fazê-la forte, tristeza para fazê-la humana e esperança suficiente para fazê-la feliz. As pessoas mais felizes não tem as melhores coisas, elas sabem fazer o melhor das oportunidades que aparecem em seus caminhos”.

sexta-feira, 25 de julho de 2008

FILOSOFIA FELINA II

Mais um trecho do saboroso romance "Amor em Minúscula", de Francesc Moralles:
"Vida emocional
Diz-se que os gatos são egoístas, quando na realidade, são simplesmente espertos. Não vêm a você se podem fazer com que você vá a eles. Sua força reside em sua aparente indiferença. Preferem deixar-se amar a arriscar seus sentimentos deixando-os evidentes. Como bons taoístas que são, fazem sem fazer e governam sem governar. Limitam-se a manter sua dignidade e a se conduzir de acordo com seus caprichos. Não pedem carinho e por isso o obtêm sem pedi-lo. Os cães têm dono; os gatos, criados."

quarta-feira, 23 de julho de 2008

FILOSOFIA FELINA

Impossível resistir a prosa do romance de Francesc Miralles, Amor em Minúscula. Leve, fluente, descompromissada e inteligente, a obra do escritor espanhol cativa o leitor desde a primeira frase quando se é levado a conhecer Samuel, um professor de filologia alemã. Solitário, durante a noite do ano novo, ele recebe a visita inusitada de um gato. A partir de então sua vida toma um rumo inesperado, celebrada por amizades estranhas, reencontro com o primeiro amor e revitalização pessoal. Ágil, divertido, sem ser superficial, Amor em Minúscula compreende várias teses. Uma delas é que torna-se possível definir a personalidade de uma pessoa pelo fato de gostar ou não de gatos. Segue abaixo um trecho desse primoroso romance.
"A vida Espiritual
Os gatos são grande meditadores, além de especialistas na arte do Yoga. O felino é capaz de permanecer imóvel durante horas, viajando até seu próprio centro, para em um instante dar um salto ao mundo exterior e comprometer todos os sentidos naquilo que está fazendo. Sua vitalidade advém do repouso, porque o animal não consome energia em estados intermediários. Age ou descansa. Quando age, o faz como se jogasse vida naquilo. Quando descansa, como se nunca mais fosse se levantar. Não perde o tempo com hesitações."

domingo, 13 de julho de 2008

Pela voz do Buda

Agradeçamos, porque se hoje não aprendemos muito,

Ao menos aprendemos um pouco

E se não aprendemos um pouco

Ao menos não adoecemos, e se adoecemos

Ao menos não morremos,

Por isso, agradeçamos!

domingo, 6 de julho de 2008

POEMAS DE QUINTANAESSÊNCIA PARA SEGUNDA-FEIRA


O CAFÉ E O CHÁ
O café é mais intelectual - o chá, mais espiritual
INCENSO
Defumação aromática para hipnotizar Nosso Senhor
TÃO SIMPLES
A verdadeira coragem consiste apenas em não nos importarmos com a opinião dos outros... Mas como custa!
TRANSFERÊNCIA
Dar conselhor traz sempre um grande alívio porque nos desobriga de os seguir.
HAIKAI
No meio da ossaria
Uma caveira piscava-me
Havia um vaga-lume dentro dela.
Saudades do bom velhinho! Um ótima segunda-feira!

sexta-feira, 27 de junho de 2008

(DES)APEGO

Acho loucura me aventurar pela poesia com tanta gente talentosa por aí, mas aí vai um fluxo de palavras que surgiu durante uma aula, uma de muitas viagens interiores das mais belas... E por força da Adriana, uma colega muito criativa, registro minha primeira, de talvez muitas....



Computador
Carro
Confusão
Caos
Deleta!
Televisão
Telefone
Trafego
Tentação
Turn off!
Roupas
Relógio
Razão
Rixas
Doa!
Vai!
Livra-te desse obtuso jeito
American way life
de ser.
Limpa-te!
Sente o vento
purificar até as entranhas
Espanta o medo.
Vive!
Comunga com o teu presente
Que é o bem mais valioso
Que podes ter.

CONSPIRAÇÃO DE NUVENS

Um livro de crônicas e memórias. Despretensioso e leve, a obra Conspiração de Nuvens (Editora Rocco) de Lygia Fagundes Telles é uma reunião das melhores reminiscências da autora. São cerca de 20 pequenos registros da vida desta célebre escritora brasileira que detém um estilo único, reunindo palavra e afetividade de maneira exemplar. As memórias de Lygia registram desde a infância no interior de São Paulo junto à mãe pianista, contadora de histórias românticas, até a companhia do pai, um funcionário público com pretensões artísticas de quem herdou a vocação literária. O livro também conta como a autora se envolveu com o movimento do artistas cariocas e paulistas nos anos setenta que foram a Brasília entregar uma carta de repúdio à censura imposta no governo Geisel (e nesse ponto o avião que os levava parece cair devido a uma tempestade, a verdadeira conspiração das nuvens). Também está lá a ligação da escritora com Erico e Mafalda Veríssimo, sua admiração pelo nosso maior escritor gaúcho. Perpassa pela escrita de Lygia um misto de nostalgia, encanto, lirismo, comédia, leveza, mas acima de tudo compaixão pelo outro, um livro que transborda vida pelas palavras e pelos afetos. Vale a pena ler essas memórias em que até as nuvens conspiraram a favor.

terça-feira, 24 de junho de 2008

SÃO PAULO, CIDADE CINZA



O centro de São Paulo é cinza, sujo, antigo e não menos fascinante. A foto acima é de um domingo pela manhã, proximidades da Praça da República. Como as manhãs de domingo de qualquer metrópole nacional, a cidade parece mais humanizada, menos entulhada de carros e lixo. É possível perceber uma arquitetura mesclada por edifícios da década de 60 e 70, ainda com suas fachadas preservadas. Com a nova lei que proibe cartazes e outdoors, a cidade ficou mais limpa, porém mais cinza. As cores de São Paulo são as pessoas que transitam a pé pela região central. Há de tudo: adolescentes, crianças, pedintes, idosos passeando com seus cães, gente indo trabalhar no domingo e notívagos voltando da boemia. Abaixo uma das pérolas da arquitetura de Oscar Niemeyer, o edifício Copan, construído em 1961.



São 32 andares que abrigam 1160 apartamentos, com cerca de cinco mil moradores. Olho para cima e intrigado penso como deve ser viver nessa grande edificação, tombada pela prefeitura. Conta-se que o síndico do edifício tem um salário maior que o prefeito de São Paulo para manter a ordem e o convívio entre os habitantes. Há apartamentos de todos os tipos. Nos blocos A, D e E ficam os maiores, enquanto o C e B abrigam os kitinetes. Há pessoas de todos as classes e identidades morando lá. Muitos artistas, mas também famílias. É uma moradia síntese de Sampa, cidade múltipla. Fico enfeitiçado pensando "como seria viver ali?"




O metrô de São Paulo é um dos mais limpos e organizados do mundo. Nele você não vê os camundongos passeando pelos trilhos, como é comum em Londres, ou aquele lixo espalhado, misturado a fezes de cachorro, em alguns pontos do metrô de Paris. Leva algum tempo para você se organizar quanto aos itinerários (é necessário perceber sempre a última estação para conseguir chegar ao seu destino). O metrô de Sampa é o grande médico da cidade. Graças a ele, ela respira, senão já teria convulsionado. É possível ver arte também. A pintura abaixo está localizada num painel enorme na estação da Praça da Sé. Retrata o espírito do trabalho que paira em Sampa, o empreendedorismo de seus trabalhadores na construção da maior cidade da América Latina.


SÃO PAULO CULTURAL



São Paulo não vive só de gastronomia, shoppings e arranha-céus. É também uma capital cultural onde se pode conhecer um pouco da história do Brasil. A foto acima é da Estação da Luz, local onde, além de uma bela arquitetura, hospeda uma estação de trem e também o cultuado Museu da Língua Portuguesa que já acolheu exposições de Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Gilberto Freire. Atualmente expõe material relacionado às comemorações dos cem anos da imigração japonesa no Brasil. A Estação da Luz também já foi cenário de minisséries e novelas, pois é uma volta ao tempo numa cidade moderna e cosmopolita como Sampa

No mesmo quarteirão ainda pode-se visitar a Pinacoteca, com exposições fixas e temporárias. Prédio Histórico, é possível conferir lá os trabalhos dos intrépidos e inesquecíveis modernistas. Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral e Anita Malfatti marcam presença, embora com poucas obras, o que frustrou profundamente este que vos escreve.




Abaixo, os jardins da Pinacoteca ao lado do Parque da Luz.



segunda-feira, 9 de junho de 2008

CINE DESIGN TERROR



Os professores Rodrigo e Ramiro Pissetti (a moda dos irmãos Coen) organizam neste sábado, dia 14 de junho, a IIª Edição do Cine Design, na Faculdade da Serra Gaúcha. O tema do encontro será filmes de terror. Inicialmente serão mostrados trechos de clássicos como Exorcista, Poltergeist, Nosferatu e Drácula e de filmes B famosos, como Ataque dos Vermes Malditos, A Morte do Demônio, Casa do Espanto e Hellraiser. O encontro abordará o tratamento limístrofe entre o filme de terror e os filmes B, bem como a estética que permeiam as obras. Farão parte do debate, professores de diversas áreas do conhecimento, cinéfilos e comunidade em geral. Este que vos escreve também estará lá. O encontro acontecerá a partir das 13h, no auditório da instituição.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Clarice Lispector - para uma sexta-feira chuvosa



"... Amor será dar de presente um ao outro a própria solidão? Pois é a coisa mais última que se pode dar de si."

terça-feira, 27 de maio de 2008

CURITIBA - cidade dos sebos



Outra atração da capital do Paraná é o Setor Histórico, onde há vários quarterões que abrigam construções antigas. Nesses locais imperam artesanato e, para os amantes da boa leitura, muitos sebos que vendem desde livros até objetos antigos. É uma volta ao tempo, literalmente.

CURITIBA - cidade e cultura



Um dos locais mais bonitos de Curitiba é o Bosque do Alemão (foto acima). Quem gosta de natureza, calmaria, plantas, flores e uma boa contação de histórias é altamente recomendável conhecer o local, já que mesmo parecendo pequeno, vai se revelando na medida em que o passeio se processa pelo visitante. Ao lado do pórtico maior há uma clareira que reproduz os caminhos de João e Maria, famosa história dos Irmãos Grimm. Esse caminho de pedra (foto abaixo) que percorre todo o bosque reproduz, em paradas, com formato de chapéu de bruxa, a história dos irmãos abandonados entregues aos mistérios da vida.



Também há árvores e plantas assustadoras, como mostra a foto abaixo.

Quem segue os passos da história chega a clareira ao meio da floresta, onde há uma fonte repleta de carpas grandes e uma casa (não de chocolate, este está mais ao final da trilha, numa barraca de doces feitos por uma senhora alemã muito prendada). No interior da casa está a bruxa, que não é a original do conto propriamente dito e sim uma bruxa boa (agora surpreendam-se!), uma bruxa dos pampas, como ela mesma se apresenta (foto abaixo). Ao seu redor, dezenas de crianças e mães se deixam encantar pelas histórias. A magia não morreu...



Mais ao final do percurso, uma porção de degraus que levam ao mirante, de onde Curitiba se mostra ainda mais bonita. Fim do passeio pelo Bosque Alemão.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Na natureza selvagem



Into the Wild, traduzido literamente como Na natureza selvagem, é uma adaptação da obra literária de mesmo título baseada nos diários de Christopher McCandless, um jovem americano que nos 70 que resolve abandonar o jeito americano de viver (baseado na carreira, família e dinheiro) para viver como um andarilho e cruzar todas as fronteiras do país até chegar ao Alasca, seu destino final. A adaptação do livro, feita por Sean Penn, que também assina a direção do filme, é um instrumento belo e provocador para os mais apegados ao estilo capitalista, como dinheiro, posição social e reconhecimento. Christopher, vivido pelo talentoso Emile Hirsch (o Sedwick, de O Clube do Imperador) convence no papel título, transferindo a personagem a força necessária tanto nos momentos de angústia, quanto nos de sabedoria. No caminho do jovem surge um casal hippie e um senhor de idade, quando o caráter conciliar e filosófico do desprendimento das coisas atinge sua porção mais assustadora e cruel. Poderá o homem viver alheio as coisas do mundo com sabedoria e resistir aos mistérios da natureza ao seu redor e a sua própria natureza? A direção do filme aposta nos vários pontos de vista da narrativa (o jovem, sua irmã e sua família) para reforçar as discussões a respeito das escolhas, suas perdas e seus ganhos. Um filme para refletir.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

A cidade evadida respira

Grandes cidades parecem pequenos oásis em manhãs de feriado e domingo. Isso porque parte da população adormece ou se retira, sem estar condicionada ao relógio. O sol se espalha, os pássaros parecem cantar mais alto, as ruas estão semi-desertas, os carros desaparecem. Nunca gostei de carros. Não sei dirigir e não tenho a mínima pretensão de aprender. Prefiro andar a pé, sorver o ar, contemplar paisagens. No entanto, isso tem sido quase impossível na média-grande Caxias do Sul dos últimos tempos. A não ser nas manhãs de domingo e nos feriados, como este de hoje. Como um flanner, aquele ser que percorre as cidades em busca dos detalhes e das experiências, pela manhã desta quinta-feira foi possível sentir a cidade, amá-la, sem o ar poluído da semana ou os malditos carros, barulhentos, poluentes, com seus donos irados, ansiosos, quase indiferentes a paisagem da cidade, concentrados em seus voltantes. Sim porque dentro de um carro a visão do mundo é parcial, egoísta e difusa. Você não consegue disfrutar do céu na sua totalidade, só enxerga o que está a frente do seu nariz e a realidade acaba desfocada pelo retrovisor. Benditos feriados , benditas manhãs de domingo. A cidade volta a ser criança, se humaniza. Chegará o dia que os homens romperão com seus relógios, abandonarão seus carros e despidos da vaidade que os torna indiferentes se entregarão de corpo às cidades.

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Manuel Bandeira e o eu-lírico teimoso


Vão demolir esta casa,
Mas meu quarto vai ficar,
Não como forma imperfeita
Neste mundo de aparências:
Vai ficar na eternidade,
Com seus livros, com seus quadros,
Intacto, suspenso no ar!

domingo, 18 de maio de 2008

QUEM DISSE QUE EU MUDEI?

Não importa que a tenham demolido:
A gente continua morando na casa velha
[em que nasceu.

Mario Quintana

Adoradores de Livros


Após anos de pesquisa exaustiva e uma preparação cuidadosa, a Csac Naify relança a tradução de um dos clássicos da literatura norte-americana, Moby Dick. Escrito por Hermann Melville, o livro, que já teve três versões cinematográficas, conta a odisséia do homem mortal que se pensa Deus quando cego por seu ego. Publicado originalmente em 1851, é tecido pela narrativa de um marinheiro experenciado na arte de navegar, chamado Ishmael, que conta a última viagem de um navio a procura da enorme baleia branca que devorou a perna do vingativo capitão Ahab. A riqueza do ponto de vista do narrador explora várias nuances como relato de viagem, os sermões, a preleção, a filosofia, o cientificismo. Moby Dick é um mergulho na natureza humana permeada pela suas contradições, seus sonhos, medos e desafios. A edição cuidadosa e esteticamente deslumbrante da Cosac Naify agrada e muito os leitores fetichistas, desde o corpo da letra impressa até os detalhes das ondas que perpassam as páginas. Em tempos de rapidez e tecnologias, adquirir um exemplar de Moby Dick é realmente um luxo, dada a sua beleza estética e seu conteúdo arrebatador. A editora dispôs um site visualmente elaborado. Para acessá-lo, basta digitar: www. cosacnaify.com.br/noticias/mobydick/. Boa viagem.

quinta-feira, 15 de maio de 2008

Falsos afetos - um conto autoral

Havia pouco tempo que retornara a estudar. Estava afastado das atividades acadêmicas há sete anos. O espaço físico era o mesmo e a sombra da árvore que deixara estava ainda lá, com a mesma geografia desenhada no chão de pedra. Sento no banco à soleira da árvore e fico observando os transeuntes. Nenhum rosto conhecido. Lembro dos professores que por muito tempo ali passavam, dos ensinamentos, do café no bar do Antônio, das conversas acaloradas sobre literatura, dos afetos. De repente, uma conhecida. Aproximo-me. Gentilezas do ofício, poucas palavras, nenhum sorriso. Então questiono "e a professora tal, por onde anda?" - "aposentou-se!", e a "fulana de tal" - "faleceu, não soube!" Despedidas cordiais, porém distantes. De volta a sombra geográfica, procuro um rosto na multidão que agora se dissipa. Horário de aula. Em direção ao ônibus, um pouco de excitação: vejo um semblante familiar. Mudo então o rumo em direção a pessoa. O sorriso brota. É ela. Aquela que me fez apaixonar pelas leituras dos poetas, dos flanners. Estava pouco mudada e continuava elegante. Aproximo-me e o coração bate mais forte. Ensaio um abraço. Lasco-lhe um beijo. Adeus nostalgia! É ótimo estar de volta. Em seguida, pânico, a esperança se desfaz. Os passos dela são mais rápidos. A simpatia dá lugar a formalidade. Ela se afasta e eu permaneço lá, estático. Simulo uns passos para não parecer o que sou, patético. Decido partir do local, com um misto de decepção e tristeza. O passado morreu. E com ele os laços que pensei ter com aquele lugar. Nostalgia dói. Nessa dor doída, ela nos confirma que tudo é impermanente. As pessoas mudam e as verdadeiras amizades ou as que parecem ser são apenas ilusão do tempo, esse mentiroso.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Fragmentos do dia - Adélia Prado


Bem-aventurado o que pressentiu
quando a manhã começou:
não vai ser diferente da noite.
Prolongados permanecerão o corpo sem pouso,
o pensamento dividido entre deitar-se primeiro
à esquerda ou à direita
e mesmo assim anunciou paciente ao meio-dia:
algumas horas e já anoitece, o mormaço abranda,
um vento bom entra nessa janela.

segunda-feira, 5 de maio de 2008

A vida dos outros

Produção alemã, A vida dos Outros levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro no ano passado e se tornou um dos filmes mais vistos na Europa. Agora está disponível em DVD para apreciadores do bom cinema. A película remonta os anos da guerra fria e da decadência do socialismo na Alemanha Oriental. Trata da perseguição a um intelectual, o escritor Georg Dreyman (vivido por Sebastian Koch), suspeito de conspirar contra o governo, que passa a ser vigiado por um funcionário público de Departamento de Informação, o austero e dedicado Anton Grubitz (Ulrich Tukor). Ao escutar o seu algoz, ele passa a simpatizar com ele, suas idéias, a refletir sobre a situação política do país, deixando ou subvertendo as informações reais ao governo. Ao final, paga um preço por isso, mas tem sua dignidade desvelada por Dreyman, já numa Alemanha unificada e globalizada. O roteiro e a direção de Florian Henckel Von Dommersmarck dignificam o filme e fazem de A vida dos Outros um dos melhores thrillers políticos no melhor estilo Constantin Costa-Gavras ou do clássico 1984, de George Orwell.

domingo, 4 de maio de 2008

Um pouco de Hilda Hilst - sugestão da Jéssica

Se for possível, manda-me dizer:
- é lua cheia, a casa está vazia
manda-me dizer, e o paraíso
há de ficar mais perto, e mais recente
me há de parecer teu rosto incerto.
Manda-me buscar se tens o dia
tão longo como a noite.
Se é verdade
que sem mim só vês monotonia.
E se te lembras do brilho das marés
de alguns peixes rosados
numas águas
e dos meus pés molhados,
manda-me dizer:
- é lua nova
e revestido de luz
te volto a ver.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Almanaque Machado de Assis



Complementando a lista de obras que comemoram o centenário de morte de Machado de Assis, a Record disponibiliza nas livrarias o Almanaque Machado de Assis. O autor Luiz Antonio Aguiar proporciona aos leitores fãs do autor várias curiosidades acerca de sua vida e obra. De perfis das personagens a lista de contos prediletos dos críticos, o almanaque é um achado em meio ao grande número de publicações acadêmicas de um dos nossos maiores autores. Longe do teor acadêmico, a autor Luiz Antonio Aguiar traz dados sutis e até engraçados, numa abordagem leve e descompromissada dos romances, contos, poesias e crônicas machadianas. Para ler na sala de espera de consultórios ou na fila de padarias.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Lições de uma vida


The Water is Wide tem o título um tanto clichê. Chama-se Lições de Uma Vida. A história de Conroy é autobiográfica e relata o conturbado final da década de 60, quando ele viveu a experiência de lecionar para um grupo de crianças negras numa ilha da Carolina do Sul. O livro não foi traduzido para o português, mas ganhou uma versão para a televisão em 2006, e está em exibição no Telecine Premium, em alguns horários. Interessante acompanhar a trajetória de um jovem professor idealista que conquista os pais tradicionais e encontra dificuldades para ensinar um grupo de crianças resistentes à aprendizagem. Na mesma linha de Ao mestre com carinho ou Escritores da Liberdade, vale a pena conferir esta tradução televisiva da novela de Conroy, mais conhecido no Brasil como o autor de O Príncipe das Marés, que também virou filme com Nick Nolte e Barbra Streisand no final da década passada.